Filhos do álcool. Vidas marcadas pela vergonha e pelo medo

Por Joana Capucho, Diário de Notícias (Portugal)

“Chamo-me Dulce e sou filha de um alcoólico”. Dezoito anos depois de o pai ter deixado de beber, Dulce, de 39, fala dele com orgulho. Já não tem vergonha como tinha quando, durante toda a infância e adolescência, o pai aparecia bêbado. Lembra-se de desejar que ele não fosse aos lugares onde estava para não se sentir embaraçada. “Não cambaleava nem caía. E nunca nos tocou, mas era muito ríspido, muito bruto.” Além disso, havia o medo constante de um acidente de carro ou que algo de mau acontecesse. “Até os 20 anos não tive pai. Não é fácil conviver com um vício que é perfeitamente aceito pela sociedade”.

Dulce e Maria são filhas de pais alcoólicos, duas mulheres que viram sua infância ser consumida pelo álcool. […] “Sempre que, na infância, os filhos são sujeitos a situações de tensão e violência, seja física ou pelo consumo de álcool, obviamente ficam marcados para o resto da vida”, diz ao Diário de Notícias o psicólogo Carlos Céu e Silva.

Em muitos casos, são as crianças que assumem o papel de cuidadores, que tratam dos irmãos e que se encarregam de alimentar, lavar ou acalmar os progenitores alcoolizados. “Não existem momentos de pura infância. Quando se tornam adultos, muitos ficam exageradamente desconfiados, rígidos ou com crises de identidade. Mais do que isso, há um descontentamento permanente, porque não viveram a infância, não tiveram modelos, assumiram o papel de pais”, explica o psicólogo.

Álcool leva à violência

Catarina Homem da Costa, psicóloga clínica, diz que “quando o alcoolismo é materno, está mais associado a situações de negligência, de não prestação dos cuidados básicos”. Já quando é paterno, está “muitas vezes associado a um aumento de comportamentos violentos e/ou inesperados. Outros casos graves são os que levam a situações de abuso sexual”. Há crianças que reconhecem pelos passos se o pai está bêbado, que vão a bares buscar os pais para evitar que bebam demais. “Outras descrevem que algumas vezes o pai acaba caindo no chão e que o cobrem com um cobertor para que não sinta frio. Em alguns casos, o progenitor é descrito como tendo comportamentos infantis, em que a sua autoridade é desvalorizada”.

Dulce acha que o pai começou a beber quando estava no exército. “Naquela época, quem mais bebia, mais homem era”. Apesar dos repetidos pedidos dos filhos e da mulher, ele não reconhecia que tinha um problema. “Nós é que éramos malucos, dizia ele”. Filha de camponeses, Maria recorda que o pai começava a beber logo de manhã. “E continuava ao longo do dia”. Em casa, não se falava sobre o assunto.

Há casos que são menosprezados até pela própria família, diz Catarina Homem da Costa. “Ainda há muitos meios em que o alcoolismo é visto como um comportamento ‘normal’ e habitual nas famílias. Estes comportamentos são desvalorizados ou desculpabilizados”, afirma a psicóloga. E alerta: “Mesmo que estes casos sejam denunciados, acham que a criança não corre risco, porque o risco na nossa sociedade ainda está muito associado ao risco físico”.

No Reino Unido, por exemplo, há instituições específicas para filhos de pais alcoólicos. Já em Portugal não existe algo direcionado para estas crianças. […]

Filhos dependentes

As marcas deixadas pelo alcoolismo dos pais podem manifestar-se de diferentes maneiras. Segundo Carlos Céu e Silva, há filhos que se tornam “adultos autônomos e exigentes em termos emocionais” e que têm “comportamentos opostos aos que receberam na infância”, muitas vezes com a ajuda de terapeutas, familiares ou amigos. Há também situações ambivalentes, ou seja, “filhos que têm dificuldade em gerir emocionalmente a questão do pai biológico e que ao mesmo tempo só trouxe desilusão e sofrimento”. E o lado mais negro, ressalva, que são “filhos que não sabem se libertar e que, quando se tornam adultos, mantêm relação com as dependências”. Estão “sempre insaciáveis, à procura de mais, não só nas dependências, mas também no amor, no trabalho”. São pessoas “que nunca estão completas”.

Maria sabe que poderia ter tido uma vida diferente se o pai não fosse alcoólico. “O medo me bloqueou bastante. Comecei desde muito cedo a sofrer do sistema nervoso”, recorda. Foi nos Alcoólicos Anônimos, onde entrou em recuperação há 13 anos, que aprendeu a lidar com o passado e os medos que a atormentavam. Ficou a mágoa, lamenta, de não ter tido a oportunidade de dizer ao pai que o compreendia.

Dizem os especialistas que é comum os filhos de alcoólicos manifestarem problemas comportamentais e emocionais. Catarina Homem da Costa sublinha o impacto da violência, da negligência, da autoridade exercida através da força, do medo, de reações inesperadas e inexplicáveis. Pais que num momento são responsáveis e carinhosos e que rapidamente passam “a ser pessoas com comportamentos imprevisíveis, a precisar de cuidados, a causar medo ou mesmo repugnância”.

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